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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Short & Half Mision Brasil

A cidade é Passa Quatro em Minas Gerais, a prova é SHORT & HALF MISION BRASIL.
Onde Short significa 40k, que nesse caso eram os camisetas vermelhas e o Half 80k com camisetas verdes, obrigatórias pela organização. No começo achei ruim a obrigatoriedade, não poderia utilizar a camiseta do clube mas depois entendi o verdadeiro sentido dessa regra.
Antes de continuar gostaria de fazer os agradecimentos, obrigado Vânia, minha técnica de corrida, pela competência de seus treinos
Duas provas longas de 40k em três meses não dando tempo hábil para uma reabilitação descente, sei que a culpa é só minha, mas você conseguiu.
Agradeço também Meg Montão, nutricionista esportiva
Essa sim atleta de verdade, não um corredorzinho meia boca como eu, representante brasileira em olimpíadas e pan-americanos, pegou esse rabo de foguete e de cara já ensinou que perder peso não tem nada a ver com passar fome, são somente melhores escolhas.
De volta a Passa Quatro quero lembrar que aqui 40k é coisa de principiante, 80k já é para quem é mais calejado e imagino que os 160k que é a Mision completa deva ser somente para cascudos, ogros, selvagens ou qualquer coisa do tipo.
O organizador do evento Sidney Togumi bem que tentou avisar, mandou e-mails falando das dificuldades que poderíamos enfrentar, avisando que é uma prova de autonomia, que cada um deveria levar suas coisas tais como água, comida, remédios, blusas, pilhas para as lanternas?( não tinha entendido o porque ) e que mesmo que ele quisesse não poderia fazer um resgate por onde passamos.
Antes da largada no briefing ele voltou alertar que a prova era "dura" que se não estivéssemos bem no km 13 para não seguir em frente e que a missão seria voltar bem e não se preocupar com mais nada além da segurança. Preocupado o japa não?, exagerado o carinha né!
De Santo André estávamos em sete pessoas, Cadu ( responsável direto por essa merda toda, ele que convidou os outros babacas como eu) Rodrigo, Deyse, Eduardo, Renato ( que não está na foto anterior ) e "Lazinha" no alto dos seus 70 anos, sei que é feio falar em idade de mulheres mas aqui se faz necessário.
Daqui para frente conto como foi minha prova, cada um sabe a dor e o sofrimento imposto a sí e não se importa diretamente com a dos outros, traduzindo para o popular " pimenta nos olhos dos outros é refresco".
Na saída tudo bem, dois km de paralelepípedo, atravessamos a estrada ( interditada somente na ida, na volta não teria ninguém para segurar o trânsito, avisado pelo Sidney) e uma estradinha de terra básica, já subindo mas básica.
o visual muito bonito e bem tranquilo, pontes de madeira e riachos fazendo parte do passeio
chegamos ao primeiro posto de água, hotel Refúgio Serra Fina, se quisesse se abastecer teria que sair da trilha descer uma rampa até chegar a umas torneiras, nesse momento não se fazia necessário.
a visão da montanha já preocupava
aqui 1,5k para a frente do refúgio serra fina o segundo posto de água ( o riacho ), a menina estava avisando que seria o último posto em 5 horas e que não deveríamos prosseguir se não estivesse bem ( lembra do Japa?)
Tirei da minha mochila, que tinha virado um " cinto de utilidades igual ao do Batman" duas bisnaguinhas com peito de peru ( obrigado Meg mais uma vez ), uma fruta, enchi o reservatório com água fresca afinal já tínhamos até o momento 1h30min de prova e me preparei para sair. Quero aqui mostrar um detalhe, atrás de mim, abaixo da minha mão direita, uma fita pendurada no mato ( vermelha e branca ) esse é o indicador do caminho a seguir, por todo o percurso essa fita para nós dos 40k  junto com fitas reflexivas e para o pessoal dos 80k reflexivas e fitas verde e preta.

Desculpem tinha me esquecido de outra informação dada pela menina do controle, começaria ali uma "escalaminhada", que não demorei muito entender o significado, tenho que discordar, não tinha a parte da caminhada e somente da escalada, o medo tomou conta, é medo mesmo
Começou aí a subida para valer, dá para perceber que não estávamos baixo e outro super herói veio na mente ( super homem ) para cima e avante. Trecho de escalada dura, tinha que esperar o corredor da frente tirar o pé do chão para poder por a mão torcendo para ele não perder o equilíbrio e pisar nos seus dedos, caminho de mato fechado, seguia o competidor da frente colado nele, não havia uma trilha era praticamente uma picada, o desespero só era maior quando o cara desistia e falava para você passar que ele mesmo não aguentava mais, nada na sua frente nem ninguém até cordas de apoio precisamos agarrar

subindo cada vez mais e assim que dava uma clareada no mato outra visão perturbadora, a montanha cheia de pessoas indicando o caminho a seguir, desespero é a palavra mais próxima do que senti ao ver que teria que percorrer aquele trecho

No topo do morro da foto anterior achei que começaria descer, e assim foi mesmo só que essa descida era seguida por outra montanha, a preocupação constante com um único fator, a luz do dia, teria que sair dali antes de escurecer, os quilômetros estavam demorando perto de vinte minutos para serem percorridos e o medo voltava sempre.
começamos correr novamente só que agora no cume, parei aqui para mais um lanche de bisnaguinha e peito de peru ( obrigado Meg novamente, não me cansarei de agradecer )  barranco dos dois lados e na frente mais uma subida
aqui já passado o cume dá para reparar que os corredores estão acima das nuvens, as subidas e descidas da montanha e o trajeto percorrido.
a cidade lá longe, a máquina fotográfica está no seu zoom maior.

Aí sim, aqui era a separação dos trechos de 40 e 80 k, onde seriam separados as crianças da gente grande, quem faria 80 seguiria em frente e os pobre coitados dos 40 virariam para a esquerda começando assim a descida.
Desculpem mas tenho poucas fotos da descida, perdi a conta de quantos tombos levei, só me lembro de um em específico, de frente, tropecei em um galho e fui de boca, não caí literalmente de boca porque o chão estava muito longe devido a inclinação do terreno, outra imagem para ilustrar seria aquela cena de um avião de guerra pousando em um porta aviões que como o convés é curto se usa um gancho para frear a aeronave só que aqui eu era o avião o chão o porta aviões e o gancho meus braços, segurei onde deu e onde não deu também, começou então o alívio de toda essa situação, o Refúgio serra fina, até que enfim faria o trecho final em estrada de terra. Na foto uma garota do hotel me ofereceu uma cadeira para descansar, não sei como estava minha cara, será que estava tão ruim assim?. será que ela percebeu que eu não estava bem?, estaria estampado nela todo o sofrimento de percurso?, agradeci,  me abasteci de água fresca novamente, mais um lanche e uma fruta e falei que agora faltava pouco, ela riu, falou como assim falta pouco? faltam 13 k ainda!, falei que agora era já o fim, que a estrada de terra batida era uma rodovia pavimentada e iluminada e que todo sofrimento tinha acabado.
Civilização novamente, carros pelo caminho, vacas e cavalos pastando, um paraíso

Aí está o prêmio, uma medalhinha que significa muito mais que uma fita com um pedaço de metal na ponta, que provavelmente estará velha e suja daqui a alguns anos, significa uma vitória pessoal, um desafio para mim fantástico, uma vitória sobre meus medos, uma superação da mente, seis horas depois de sair da cidade estava de volta

O Sidney, organizador do evento cumprimentou pessoalmente todos os participantes da prova, chegada do Cadu
Renato e Rodrigo
Deyse, Eduardo e um parceiro de prova que terminaram juntos
e a surpreendente " Lazinha", aqui quero falar dessas mulheres fantásticas da prova. Nossa amiga com 70 anos enfrentou tudo que descrevi até agora, frio, cordas, mato e não se abalou. Surpreendeu até o organizador que achava que ela não terminaria inteira

Outra fantástica, Tomiko 65 anos e foi para os 80k, não estou brincando não, você não entendeu errado não é isso mesmo 65 anos e foi para 80k na montanha, desafio que este bundão não teve coragem de encarar, mais de 24 horas de prova, passou a noite andando pela serra com um frio de três graus e chegou bem.
Outra incrível é essa mulher que vou pedir desculpas mas não sei o nome, ganhadora feminina da prova dos 80k e não só isso, segunda no GERAL, é isso mesmo, deixou todos os marmanjos para trás.
isso não tira o mérito do ganhador geral da prova de 80k que chegou na frente da maioria dos bundões como eu dos 40k, mas mostrou que a força está com elas.
aqui estão os troféus
aqui novamente " nossa " Lazinha, ganhadora na faixa etária. Parabéns aos participantes e aos organizadores, quanto a mim se perguntarem se gostei e se faria novamente ano que vem a primeira resposta é NÃO, quem sabe se quando as dores no corpo passarem e eu conseguir me mexer novamente as coisas mudem.

+ fotos
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3 comentários:

Bipolaridades curiosidades e artes disse...

Parabéns Beto! A Deyse me indicou o Blog e viajei com a sua matéria! Isso é show de vida! Muita saúde e disposição! Um incentivo admirável!
Abraços a todos os amigos de equipe! Aluizio.

Unknown disse...

Aluizio eu que tenho que agradecer tanto a Deyse quanto ao Rodrigo, eles que me levaram para esse mundo de contradições, alegrias e tristezas, decepções e sucessos e outros sentimentos variados. A corrida é um esporte maravilhoso.

Eduardo Armelin disse...

Parabens pela iniciativa de registrar esta grande empreitada. Existem atitudes que separam os homens dos gigantes.

Mais incrivel que minha mae ter percorrido esses 42km, somente a biografia dela, o "como" ela percorreu esses 70 ani: "A vida nos convida a mostrarmos nossas habilidades. Quais sao as suas?".

Forte Abraço!